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Acelerando para um futuro sustentável: a busca da Fórmula 1 para se tornar carbono zero

  • Foto do escritor: Maria Eduarda Soldera
    Maria Eduarda Soldera
  • 30 de nov. de 2023
  • 6 min de leitura

Em 2019 a Fórmula 1 deu um passo significativo para a indústria ao iniciar o projeto F1 Net Zero Carbon. Agora, quase quatro anos depois do anúncio, quais avanços a categoria está fazendo para alcançar essa meta ambiciosa até 2030? 

Por Maria Eduarda Soldera


Quanto mais os anos passam, mais criamos consciência da necessidade de cuidar do nosso planeta - e da importância de começar agora. À medida que mais pessoas se tornam conscientes dos problemas ambientais, uma pressão crescente afeta todas as áreas do nosso cotidiano, com o automobilismo não foi diferente.


Avanços já iniciaram anos atrás, em 2014, com a criação de uma categoria totalmente elétrica, a Fórmula E. Mas, e a Fórmula 1? A principal categoria do automobilismo, que sempre foi considerada um sinônimo de inovação tecnológica, não havia se manifestado sobre questões sustentáveis até quatro anos atrás.


Na busca por continuar sendo pioneira em inovações da indústria automotiva - e por pressão do público -, a Fórmula 1 traçou um objetivo para que, até 2030, seja uma categoria que não emite mais gases estufa do que remove. O projeto, chamado de F1 Net Zero Carbon, foi anunciado em 2019, após 12 meses de estudos pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA), pelos especialistas em sustentabilidade, pelas equipes, promotores e parceiros da F1.


Para uma temporada inteira da

 Fórmula 1 são emitidos cerca de

 256.000 toneladas de CO²   

Segundo uma auditoria da FIA.


E por mais que os carros sejam rápidos, eles são responsáveis por apenas 0,7% desse total - somando as dez equipes em todas as etapas da temporada. O maior problema, e mais complicado de ser resolvido, é a logística de transporte internacional de equipamentos e equipes, que respondem a 45% das emissões de CO2. O restante representa 27% das viagens de negócios, 19,3% das fábricas e instalações e outros 7,3% para operações do evento.


Carol Politta, engenheira mecânica e comentarista de automobilismo, diz que a visibilidade que a categoria está trazendo para o assunto é muito importante, mas que é algo que já deveria ter acontecido. “Acho que a F1 está um pouco atrasada em suas metas. Acredito que ela deveria estar fazendo mais coisas a mais tempo, já temos essa tecnologia a alguns anos para eles se posicionarem apenas agora.”

O que mudou até aqui?

Quando a Fórmula 1 toca no assunto Net Zero é sempre focado nos carros, mas e o evento? Algumas ações nesse sentido estão sendo colocadas em prática, como, por exemplo, o programa de operações remotas.


O sistema foi lançado em 2020, durante a pandemia, e desde então todas as transmissões são controladas de um escritório físico localizado no Reino Unido -  e não no país de cada corrida, como acontecia antes da mudança. O que trouxe alguns resultados expressivos: o programa permitiu que o frete nas viagens fosse 34% menor, eliminando cerca de 70 toneladas de carga transportada para cada corrida, causando uma mudança radical nas emissões logísticas.


Algumas pequenas mudanças, mas que fazem total diferença, já podem ser vistas durante os Grandes Prêmios. Em vez de água mineral em garrafas plásticas, os funcionários do paddock utilizam garrafas reutilizáveis, e todas as credenciais disponibilizadas pelo evento passaram a ser feitas de plástico reciclado a partir de garrafas.

90% das emissões de carbono foram

reduzidas no circuito da Áustria

em relação à mesma corrida realizada em 2022.


No GP da Áustria, em Julho, a categoria testou um sistema inovador para geração de energia no Red Bull Ring. O sistema foi criado a partir de biocombustível de óleo vegetal hidrotratado, além de  600 metros quadrados de painéis solares.


Novos modelos de distribuição de energia também foram adquiridos pelos escritórios da Fórmula 1, que agora utilizam 100% de energia renovável. Pequenos passos que fazem grande diferença no resultado final, como explicou Carol, “O problema dos carros é muito mais simples de resolver, mas são essas pequenas mudanças que mostram que a Fórmula 1 está no caminho certo.”

Combustível verde

Um dos principais passos, onde a F1 está apostando todas as suas fichas, é a transição para um combustível 100% sustentável. Ele está sendo criado em parceria com a Aramco, utilizando combustíveis sintéticos, que queimam carbono, porém, retirado de bioderivados como lixo municipal e biomassa não alimentar, ou seja, o dióxido de carbono jogado na atmosfera é o mesmo que foi capturado anteriormente para a produção do combustível, deixando a pegada de carbono neutra.


A estimativa é que esse novo combustível comece a ser utilizado em 2026 e reduza as emissões de gases estufa em pelo menos 65% - mas a categoria afirma que a performance dos carros não vai mudar. Segundo Carol, as equipes vão precisar de muito trabalho nos primeiros meses para se adaptar. “Como tudo é muito bem pesquisado e passado para as equipes, pode se ter ali, talvez nos primeiros meses de corrida, as equipes tendo alguma dificuldade em relação ao combustível e aos novos motores. Mas não acredito que isso vai afetar a categoria, a corrida ou como a gente assiste a corrida. Vai ser, realmente, mais trabalho para as equipes se encontrarem e acharem o equilíbrio.”


Para receber o novo combustível, o motor do carro também será alterado e passará a monitorar o fluxo de combustível por energia e não mais por massa. “A mudança de combustível afeta o desempenho do motor do carro como um todo. Então para 2026, além da inserção de um combustível sustentável e a gente também tem a modificação de regulamento desses motores. A parte elétrica do carro vai gerar mais energia, mais potencial, para o carro como um todo” completa Carol.

O maior desafio

O grande vilão da Fórmula 1 na busca para se tornar carbono zero é, sem dúvidas, a logística da temporada. 45% das emissões de carbono liberadas pela categoria é devido ao transporte de carros de corrida, funcionários, equipamentos e estruturas de um país para o outro, pulando de continente em continente.


Crédito: Estadão

Exemplo visual de todas as viagens realizadas de país para país em uma temporada de Fórmula 1.

Exemplo visual de todas as viagens realizadas de país para país em uma temporada de Fórmula 1.


Ao todo, a F1 passa por 23 etapas no ano em um calendário desorganizado. O grande desafio da categoria é criar uma logística de calendário coerente, para que dessa forma exista uma logística de transporte coerente. Carol explica porque essa questão é tão complexa: “Atualmente essa questão da logística do calendário é muito complexa por vários motivos. Cada país possui questões que são levadas em consideração na hora de marcar a data, e muitas vezes até pagam a mais para isso. Questões climáticas, políticas, históricas e até de concorrência com países próximos - por exemplo, Catar não quer uma data perto de Abu Dhabi porque o público desses dois GP’s é geralmente o mesmo”.  


Apesar de ser algo tão complicado, a categoria fez algumas mudanças no calendário de 2024, agrupando os países da Oceania para o começo do ano e alguns países da Ásia no meio da temporada. Dessa forma é possível realizar o transporte terrestre entre essas etapas ao invés do transporte aéreo, que é muito mais poluente.


Porém, um longo caminho de estudos e negociações em relação ao calendário ainda está por vir, como o comentarista de automobilismo dos canais Globo, Rafael Lopes, afirma, “A Fórmula 1 é um dos esportes mais caros do mundo, muita coisa está em jogo quando se trata de mexer no calendário. Existem países que pagam muito dinheiro para abrir ou fechar a temporada, ou só mesmo para poder escolher a data. Uma escolha clara precisa ser feita para atingir as metas que a própria categoria criou.” 

O futuro do automobilismo



Mudanças estão sendo programadas e colocadas em prática, mas será que a Fórmula 1 é capaz de atingir a meta de diminuir em 50% suas emissões de carbono? Rafael tem uma resposta: “Restam 7 anos para a categoria trabalhar suas metas e, observando o que foi realizado nos últimos anos, a Fórmula 1 vai ter que correr muito para se tornar carbono zero. Claro que, se ela não conseguir no tempo estimado, vai ter a opção de comprar créditos de carbono ou plantar árvores.”


Com o aumento da conscientização ambiental e pressão do público por ações mais sustentáveis, a Fórmula 1 possui cada vez menos tempo para se mostrar relevante e ecologicamente responsável em um mundo que exige cada vez mais ações concretas.


Felizmente, a Fórmula 1 está acelerando na direção certa. Ela está criando biocombustíveis, está comprometida com a neutralização de carbono e está fazendo sua parte para tornar o esporte mais verde. Afinal, o nosso planeta é o único pódio que realmente importa.



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