A moda sustentável como alternativa para um futuro menos poluente
- Livian Regaçoni

- 30 de nov. de 2023
- 6 min de leitura
Como esse segmento vem mudando o jeito de ser e pensar
Por: Livian Regaçoni
A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo, sua produção têxtil afeta o meio ambiente de inúmeras maneiras, desde a exorbitante quantidade de litros de água que são utilizados para a confecção de uma simples calça jeans até os impactos significativos na emissão de dióxido de carbono que, segundo o grupo ambientalista Stand.earth, o segmento fashion é responsável por 10% das emissões anuais de CO2 no planeta.
Todo o seu processo de criação é poluente, desde a produção de matérias primas, o produto final, e até mesmo a maneira como usamos e descartamos essas peças. Durante essa produção é utilizado além de um grande volume de água, a mistura com produtos químicos, que acabam sendo descartados em rios, lagos ou córregos, contribuindo mais uma vez para a poluição.
Pode-se dizer que as fast fashions que, em tradução livre significa “moda rápida”, foram as principais responsáveis para que a indústria têxtil chegasse onde está hoje, com sua produção desenfreada e matérias primas de má qualidade, essas empresas vêm colaborando negativamente para os impactos ao meio ambiente desde os anos 90, quando esse mercado ganhou mais força.
Mas existe alguma alternativa que possa ajudar a combater esse consumo inconsciente e reverter a atual situação?
A moda sustentável vem como uma esperança de um futuro promissor para o mundo fashion. O movimento está crescendo e ganhando espaço nas grandes mídias nos últimos anos, buscando alterar o curso das fast fashions, com uma moda consciente e de qualidade, que utiliza de produtos naturais e retornáveis que não agridem nosso ecossistema e promovem o consumo responsável de seus compradores.
O futuro
A ‘Ciclo, Moda para Vida’ é uma dessas empresas que possui um viés eco-friendly e foi criada com o objetivo de repensar a moda. A marca brasileira que nasceu em João Pessoa pelas mãos de Jacira Rodrigues,a carioca que viveu boa parte de sua vida no Rio de Janeiro, é formada em engenharia civil pela Universidade Veiga de Almeida (UVA), e atuou por 17 anos como gerente de projetos na Rede Globo, se mudou para a Paraíba em 2022, em busca de uma mudança profissional e pessoal.
“Quando fiz 50 anos, comecei a repensar o que mais eu poderia ser e fazer, queria ir para novos caminhos, algo diferente; e sempre fui ligada em sustentabilidade e já tive uma confecção de roupas quando mais nova, e decidi que queria juntar esses dois mundos”, Jacira explica sobre sua decisão de deixar a carreira de sucesso no Rio e seguir seu desejo de ajudar a transformar o país em algo melhor, “Decidi que queria fazer algo pelo Brasil, mas não queria fazer no Rio, o sudeste já está cheio de iniciativas como essa. E para desenvolver o país, precisamos começar pelos lugares mais pobres, e o nordeste era onde eu queria fazer isso”, completa a carioca.

Jacira teve seu primeiro contato com a moda ainda. Foto: Arquivo pessoal
A marca é recente. Jacira a lançou oficialmente no início deste ano, depois de muitos estudos e pesquisas intensivas, ela surgiu cheia de sonhos e com um objetivo bem claro em mente: disseminar a importância da sustentabilidade, não só na moda, mas em um geral, para termos a chance de viver em um mundo melhor e mais responsável.
A Ciclo vende bolsas e chapéus produzidos por meio da técnica do upcycling e do patchwork, que consiste em reutilizar o tecido de peças que já existiam e transformar em algo novo, e também usar de retalhos descartados pelas empresas têxteis em suas produções, que são doados para confecções como a de Jacira.
Mas infelizmente isso não é a realidade de todas as empresas, já que grande parte desses retalhos utilizados acabam indo para aterros e são descartados de forma incorreta, colaborando ainda mais para a poluição dos solos. Malhas feitas de algodão levam cerca de 20 anos para se decompor, enquanto as de materiais sintéticos podem levar até quatro séculos, são mais de 4 milhões de toneladas de resíduos descartados por ano no Brasil, segundo levantamento da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).
Esse é um dos pontos onde a moda sustentável tem um impacto significativo, sem essas empresas buscando os descartes das grandes produções têxteis, onde eles iriam parar? E não só esses retalhos mas também roupas que são descartadas de formas incorretas depois que uma pessoa decide que ela não é mais usável. As técnicas de upcycling das marcas sustentáveis aproveitam todos esses tecidos que, para muitos, já não passavam de lixo.
“Uma das melhores formas de se praticar a moda sustentável é por meio do upcycling, pegar uma peça que já existe e que ainda possui uma matéria prima em boas condições, depois transformar aquilo em algo novo, que inclusive pode ser feito várias vezes, dependendo da durabilidade do material, é algo verdadeiramente significativo”, explica a estudante moda Claudiane Osório, que tem como objeto de estudo de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), justamente um estudo os impactos da indústria fashion ao meio ambiente e o upcycling.
A moda sustentável também trabalha com outras técnicas, como é o caso dos vestidos produzidos na Ciclo, a CEO explica, “Todos os vestidos que eu vendo aqui são fabricados de algodão colorido da Paraíba, que é um tipo de tecido mais sustentável, ele não tem nenhum tipo de corante em sua produção, é bastante usado aqui na região”, o algodão colorido desenvolvido pelo Embrapa, economiza 87,5% de água comparada a produção de um tecido de algodão comum tingido.
Sustentabilidade socioambiental
Durante a criação da Ciclo, Jacira teve uma virada de chave em seu pensamento, foi ai que tudo mudou e ela encontrou seu real propósito, segundo a mesma ”Precisamos pensar em sustentabilidade de forma social, não só em seus impactos ao meio ambiente, isso que mudou tudo para mim”, o “pensar no social” que Jacira tanto expressa em suas falas é um dos principais pilares para qualquer iniciativa sustentável, é o que nos move e move tudo que produzimos. A sustentabilidade não pode ser pensada apenas no aspecto de diminuição da poluição, mas também como isso impacta as pessoas.
A carioca mostra ter isso muito forte dentro de si, “Queria realmente pensar em algo social, sempre foi meu objetivo, queria valorizar a mão de obra da região, em especial das mulheres, na Ciclo eu utilizo da mão de obra dessas artesãs como uma parceria para a empresa”, Jacira explica um pouco como é feito o processo de produção das peças, “Eu passo para elas as minhas ideias e elas criam um protótipo, depois que é aprovado aí fazemos a produção em maior quantidade para a venda”.
As questões sociais também são pilares da sustentabilidade para Claudiane, “Quando pensamos em sustentabilidade não é só o meio ambiente, mas também o social. A indústria da moda que não é conscientizada acaba atingindo esses dois lados. O social muito na parte de mão de obra, que usa muito de mão de obra barata, que também é denominado como mão de obra escrava, por isso que muitas vezes o produto chega para o consumidor final com um valor muito baixo”.

Claudiane sempre foi apaixonada pela moda. Foto: Arquivo pessoal
Mas, afinal, o que podemos fazer?
Mesmo que esse segmento esteja ganhando espaço nos debates mundo afora, e que existam muitas novas marcas com um viés sustentável, e até mesmo grandes empresas que vêm repensando suas produções, tudo é muito novo ainda, “É trabalho de formiguinha”, brinca Jacira, “Mas é a pauta do momento, existem grandes empresas que realmente estão preocupadas com isso, porém ainda tem muita coisa para mudar”. Para ela a moda só vai começar a ser mudada quando todos nós nos preocuparmos com a procedência do que estamos usando e pensar se o que você está vestindo vem de uma produção verdadeiramente respeitosa com a humanidade.
“É importantíssimo que a gente se conscientize sobre de onde essas peças vem, fazer pesquisas e saber a procedência dos materiais, usar a peça até acabar sua vida durável, e buscar por instituições que façam o descarte corretamente, não apenas jogar no lixo e não se preocupar para onde ela irá”, Claudiane também fala sobre a importância de nos preocuparmos com o que estamos vestindo.
A moda sustentável trilha esses caminhos, mesmo que ainda estejamos falando sobre um nicho fechado e muito recente, existem inúmeras possibilidades de mudança.
“Esse é o impacto da moda sustentável, precisamos parar de jogar o que não é lixo fora e pensar na circularidade, dessa forma não estamos tirando matéria prima da natureza, mas sim a reutilizando, pensar em o quanto a gente pode ajudar o planeta cobrando aquelas grandes empresas para terem uma real preocupação em como essas roupas são produzidas”, Jacira fala sobre circularidade, o ato de reutilizar algo que foi usado mas com um novo propósito, como o próprio upcycling usado em sua marca.
A moda é uma indústria global, que atinge e faz parte da vida de milhões que pessoas, se continuarmos com o consumo desenfreado,a produção inconsciente e irresponsável que vem tanto de nós quanto das grandes empresas, chegaremos a impactos socioambientais irreversíveis, e Jacira enfatiza, “É preciso mudar o conceito do ter para o ser, a moda sustentável é só o começo”.




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