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Cânhamo: uma alternativa sustentável para a indústria têxtil

  • Foto do escritor: Beatriz Falcão
    Beatriz Falcão
  • 30 de nov. de 2023
  • 5 min de leitura

Fibra natural, extraída do caule da Cannabis Sativa L, gera menos impactos ao meio ambiente


Por: Beatriz Falcão


O cânhamo produz cerca de 200% a mais de fibras na mesma quantidade de terra em comparação com o algodão. Foto: Reprodução


A produção de uma camiseta de algodão consome, em média, 2,7 mil litros de água, de acordo com o relatório do Instituto de Água. Você já parou para pensar no quanto de água o seu guarda-roupa consumiu? Quando falamos de moda sustentável, nossos olhares precisam ir além do consumo consciente, e ponderar também toda a sua cadeia produtiva.


Para a peça vestir o manequim exposto na vitrine, a matéria-prima precisou ser cultivada, processada, confeccionada, transportada, e essa ainda é uma análise superficial, a cadeia produtiva é composta por inúmeros processos. Um levantamento feito pelo Banco Mundial, aponta que a produção de têxteis é responsável por mais de 20% da poluição da água.


Se fosse para listar os principais impactos, o professor de Engenharia Ambiental e presidente do Comitê de Sustentabilidade da Universidade de Sorocaba (Uniso), Renan Angrizani de Oliveira, organizaria: descarte de resíduos, recursos naturais, e emissão de gases do efeito estufa.


“Nós já podemos sentir as consequências desses impactos no nosso dia a dia, um exemplo são as mudanças climáticas e o aquecimento global”, cita o docente. “Indiretamente, em todo o momento da cadeia produtiva nós estamos utilizando energia e recursos naturais, que resultam na emissão de carbono”.


Desta forma, medir a sustentabilidade dentro da produção do setor têxtil envolve três principais fatores: o consumo de água, de energia e a utilização de agrotóxicos nocivos à terra e aos consumidores. E, ironicamente, a cultura do algodão, considerada uma fibra natural, biodegradável e aparentemente “sustentável”, não está tão alinhada ao desenvolvimento sustentável quanto pensamos. 


É nesse cenário que a fibra do cânhamo, oriunda da Cannabis sativa L, surge como uma alternativa mais sustentável para a indústria da moda. 


Mas afinal, o que é o cânhamo?


Engana-se quem está pensando nas longas e finas folhas da cor verde da Cannabis, extraídas para uso recreativo. Na verdade, o cânhamo é extraído do caule da espécie e sua estrutura é muito similar a uma palha: esguia e com poucas ramificações laterais. A sua composição é riquíssima, com insumos que podem beneficiar inúmeros setores, desde a medicina e culinária até a engenharia e construção civil.


“O cânhamo é uma variedade da Cannabis, assim como o algodão tem as suas variedades, por exemplo, o algodão colorido", explica a mestra e pesquisadora de fibras naturais, Eduarda Bastian. “Para uso recreativo são utilizadas as folhas e as flores da Cannabis, porque os índices de THC são maiores”.


Já o cânhamo, apesar de ser natural da Cannabis, possui menos de 0,3% de delta 9-tetrahidrocanabinol (THC), substância responsável pelo efeito psicotrópico da planta, portanto é ineficiente para uso recreativo.


Eduarda está à frente do Comitê Têxtil da Associação Nacional do Cânhamo Industrial (ACN), e sua paixão pela fibra natural aconteceu durante o seu mestrado, pela ArtEZ University of the Arts, localizada na Holanda. “Quanto mais eu conhecia a fibra, mais eu me apaixonava”, descreve a pesquisadora que, durante dois anos, teve contato com a cultura do cânhamo protagonizada por mulheres romenas.


"O cânhamo não deve ser visto como um substituto do algodão, porque são fibras completamente diferentes”. Eduarda ainda explica: “O algodão é uma fibra curtíssima de semente, uma pluminha. Já o cânhamo é uma fibra longa, e quanto maior a fibra, maior também será a sua resistência”.


Cada bola de algodão tem pelo menos oito ou sete sementes, que estão ligadas a cerca de 20 mil fibras. Foto: Arquivo pessoal


Além da resistência e durabilidade das peças feitas com as fibras de cânhamo, o seu cultivo também o torna uma opção mais sustentável para a indústria têxtil. “A plantação consome menos água, cerca de 80% menos que o algodão, e dispensa o uso de agrotóxico, sequestra mais carbono e há vários estudos que comprovam o poder regenerativo da planta no solo, capaz de limpá-lo de metais pesados, como chumbo (Pb), níquel (Ni) e outros”, lista Eduarda.


Desafios


As fibras de cânhamo são insumos utilizados pela humanidade há milênios. Registros datam seu uso por volta de 9.000 a.C., e, desde então, se tornou um material presente em muitos momentos históricos. No entanto, a revolução industrial e a ascensão da lógica do consumo, findou a cultura do cânhamo.


Atualmente, tecidos de fibras sintéticas representam cerca de 60% do mercado mundial, seguido pelo algodão, com 38%. A fibra de cânhamo no mercado têxtil hoje assume cerca de 0,7% de participação.


“A indústria têxtil de fibras naturais é dominada pela cultura do algodão, portanto, os maquinários são feitos para cottonização, para fibras curtas”, explica Eduarda. “A tecnologia é um dos maiores desafios para a implementação do cânhamo, e é uma pena porque a sua fibra é extraordinária”.


Há algumas marcas que, com a movimentação da moda sustentável, acrescentaram o cânhamo na linha de produção, porém, na sua grande maioria, todos os benefícios da fibra natural são anulados pelo seu processo agressivo de confecção.


“Hoje, o cânhamo pode crescer até três metros, mas para ser colocado no maquinário precisa ser cortado em até 80 centímetros, e o procedimento para torná-lo uma fibra curta é pesado, requer muita energia e muitos produtores usam de substância química para acelerar a produção”, conta a pesquisadora com pesar. “E a riqueza do cânhamo é a sua fibra longa! Então não compensa tentar ser sustentável colocando 10% de cânhamo em uma peça ou transformando a fibra em uma imitação do algodão”.


Cerca de 80% do território brasileiro é apto para o cultivo do cânhamo, contudo, falta investimento. “É uma mudança que levaria anos para dar um retorno, tanto para adaptação do maquinário quanto para o aperfeiçoamento da fibra, e nenhuma empresa grande do ramo da moda quer investir porque procuram retorno imediato. A solução? Elas compram poliéster e algodão”, coloca Eduarda.


Outro ponto levantado pela pesquisadora, é o cultivo delicado do cânhamo, assim como o de toda fibra vegetal. Após a colheita, para a extração da fibra é necessário soltá-la dos demais insumos, e o melhor momento é quando o caule está apodrecido, e esse processo é conhecido como maceração. “Nas fibras naturais, é preciso trabalhar com exatidão. Se passar dois dias de maceração, ele perde a fibra, assim como se colher dois dias antes, e este é mais um risco que entra na frente e desmotiva os investidores”, explica.


Existem duas opções de maceração: por orvalho, uma prática mais sustentável e demorada na qual a fibra é colocada em repouso no campo durante duas semanas, e submersa em água, que colabora com a poluição hídrica. 


“Infelizmente, hoje o cultivo do cânhamo não é possível, mas um dia será!”, afirma Eduarda com olhos de esperança. “Nossa missão hoje é disseminar o cânhamo, seus benefícios, informações, para que mais pessoas o conheçam e, principalmente, o seu futuro investidor”.


Ilustração: Beatriz Falcão



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